Na praça ou na universidade: o (não) lugar da criação.  escrito em domingo 29 novembro 2009 04:20

A última semana de ensaios, terça e quinta (24 e 26/11), foi bem agitada, com lances bem interessantes. Fomos convidados para realizar o ensaio da na UFPA, durante a Semana Francófona, realizada por estudantes de Letras/Francês, na quinta-feira, dia 26 de novembro, às 20h30. Na terça-feira ensaiamos na praça, a noite estava linda e o anfiteatro ficou cheio de gente. Alguns amigos estavam lá, moradores dos prédios do entorno da praça, que já estão ficando habitués, vizinhos da TV. Frei Gil, onde moro e onde fica nosso depósito, em um trecho que fica a dois quarteirões da Pç. da República. Algumas alunas de um curso de clown que ministrei recentemente na Escola de Governo também estavam lá – duas delas sessentonas e bem alegres e engraçadas e cheias de vitalidade (tinham vindo da Universidade da Terceira Idade, a Uniterci/UFPA).

Estava bonito mesmo de se ver. E, a despeito de algumas coisinhas, o ensaio foi bonito mesmo. Deu para verificamos que marcas já criadas funcionam e devem ser mantidas, mas precisam de uma lapidada. Deu também para criar novas marcas, modificando coisas já definidas. E resposta do público dá o tom, a segurança de que estamos caminhando no rumo certo. É tão mais confortável já testar ali, na frente do público a nossa criação. O papo no final também foi muito bom. Um rapaz, de passagem por Belém (hóspede do Hilton), disse que gostou muito, estava se divertindo e que havia notado que a cada cena os personagens mudam a moeda quando se referem a dinheiro. Perguntou se isso era intencional. Disse a ele que sim, cada personagem a cada cena usava uma moeda diferente. Ele sugeriu radicalizar isso: a cada fala, de qualquer personagem, que se mudasse a moeda. Achamos legal.

Um amigo observou que o texto tem complexidades que talvez não fossem entendidas por crianças, e nos perguntou como ficava isso para nós que temos um grande público infantil. Argumentamos que isso sempre ocorre e veio mais forte ao montarmos “O Hipocondríaco”, outro texto de Molière. Ficamos apreensivos com todo aquele palavrório e como isso chegaria às crianças. Bom, ao estrearmos percebemos o que já havíamos notados em outros espetáculos, que eles têm camadas de percepção e que as crianças captam determinadas camadas e os adultos outras. E que também essas percepções de adultos e crianças se misturam, se embolam. Por exemplo, as gags mais verbais são percebidas mais pelos adultos, as gags corporais pelas crianças. Se bem que em determinados casos essas percepções se invertem e/ou se misturam. Quer dizer: existem adultos bem infantis e crianças bem adultas.

Temos um cuidado grande com o que apresentamos ao público e de que forma isso é apresentado, pois sabemos que estamos quase sempre em lugares abertos, freqüentados por todos. Somos palhaços, atraímos muitas crianças e criança não sai sozinha, sempre vai acompanhada de adultos, então temos que pensar em ambos ao montarmos nossos trabalhos. Interessante é perceber que mães, pais e filhos, avós, avôs e netas, sempre estão lá, nos prestigiando, se divertindo com nossas loucuras. Eles nos dão a certeza de que nosso trabalho funciona com crianças de 8 e de 80 anos.

Na quinta-feira fomos para a Federal. Outra noite bonita e quente. Nos apresentamos no estacionamento que fica em frente aos blocos F e G. não estava bem iluminado, mas foi muito legal o ensaio. Enquanto o grupo se aquecia, apresentei o trabalho, falando um pouco de como se desenrola a poética do grupo, sua história, e também como estava se dando a montagem de “O Mão de Vaca”, nossa adaptação de “O varento”, de Molière, autor que já havia sido estudado por eles, conforme confirmaram.

Ensaiamos a cenas do início do espetáculo, indo até o final da cena da Frosina com Harpagon. Parei várias vezes o ensaio para corrigir problemas e sugerir coisas novas. Os alunos se divertiram bastante, com as cenas e com nossos erros também. E participaram, sugerindo coisas durante o ensaio mesmo. Um rapaz, Mario seu nome, sugeriu que a sonoplastia da cena de Harpagon com Elisa, quando aquele diz que quer casar esta com o Sr. Anselmo, que é feita com dois cocos e um triângulo e vai crescendo, virasse uma música e que o palhaço que tocava fosse dançando e parasse a cena, com todos lançando olhar fulminante ao empolgado, até ele cair em si e parar. Aceitamos a sugestão e a colocamos em prática. Foi o máximo, até porque quem estava tocando era a Sônia Alão, palhaça Pirulita, que faz o papel do Sr, Anselmo na peça, o tal pretendente de Elisa. E a palhaça se empolgou na terceira vez e protagonizou uma cena hilária, que fez o público rir e aplaudir.

Outro momento bem bacana foi quando fomos tocar a canção de entrada da Frosina. Um rapaz que estava com um bandolim foi chamado a entrar em cena e ele tocou conosco, ficando o “número” bem legal. As palhaças se aproveitaram, para curtir com ele, que permaneceu ali até o final da cena e conseqüentemente do ensaio. Paramos porque já estava ficando tarde para os alunos pegarem ônibus. Mas ainda trocamos idéias com os que puderam ficar mais um pouco. Foi um ensaio curto, mas produtivo. A mudança de público, com outra energia, transformou também os atores-palhaços.

Voltei para casa feliz e dormi bem demais.

 

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2 comentário(s)

  • Tanto

    Ter 01 Dez 2009 06:10

    Pena não ter podido ir! Se me deixarem em Belém por uma semana inteira, juro que irei! Abraços

  • bilazinhadamamae Seg 30 Nov 2009 13:22
    Essa semanafoi muito produtiva. Acho que crescemos muito! Minha paixão também só aumenta...
    Bjs


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