O FIGURINO E SEU DUPLO  escrito em terça 24 novembro 2009 18:04

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Tarefa árdua criar um figurino para um grupo de palhaços na montagem de um texto considerado clássico, com uma dramaturgia rígida.

Neste caso estou falando dos Palhaços Trovadores na montagem da peça “O Avarento”, de Molière.

A construção do palhaço se sustenta em um personagem específico com linguagem própria.

Tenho ai alguns desafios:

Como caracterizar (vestir) um personagem escrito e formatado de um texto clássico em uma alma clownesca, onde as formas visuais pré existem como principio único, com características individuais e de autoria pessoal?

Os Palhaços Trovadores não fogem a essa regra. O figurino que cada palhaço veste tem como princípio a concepção pessoal de cada ator clownesco. Sempre com base no exagero, o grotesco como potencial cômico, que denunciam as desmedidas entre o corpo e a roupa que veste.

O trabalho começou na observação dos figurinos de ensaio que cada um utiliza para compor seu personagem palhaço. Próximo passo foi pedir para cada um desenhar o seu personagem com todas as partes possíveis do vestuário que usualmente era utilizado por eles.

Com algumas conversas me veio uma imagem disparadora para a concepção estética do figurino. Passei alguns dias em Tomé-Açu e tive oportunidade de ir a um Circo que estava naquele momento na cidade. Eu cheguei bastante cedo e as lonas laterais estavam levantadas e percebi a movimentação dos artistas fora do picadeiro. Este mundo paralelo me prendeu até a hora de começar o espetáculo. Fiquei fascinado por ter vivenciado esses imagens desses mundos paralelos. Com um olhar de dentro do Circo vi a vida destes artistas em seu cotidiano lá fora. Então teriam dois planos visuais: o centro com a encenação do “Avarento” e o fundo com o dia a dia deste grupo de atores clownescos. Criamos então, dois tipos de figurinos: o utilizado no corpo do palhaço que veste o personagem da peça e o aplicado como adereço de cenário que serve de imagem conceitual representando a individualidade de cada um. Traduzindo esses elementos em traços, formas e volumes a imagem visual dos palhaços teria uma mistura de seus figurinos habituais com as características dos personagens do texto de Molière e ao fundo da cena um varal com roupas do dia a dia deste grupo de artistas, criando não apenas um suporte cenográfico como servindo de elemento ativo da encenação. Teriam então esses dois mundos paralelos onde em algum momento eles se misturariam.

Destacamos alguns parâmetros que norteariam a concepção do figurino.

Manter as características de cada um.

Tudo muito simples.

Desgaste pelo uso.

A avareza.

Uma peça única de tecido para o figurino.

Em um trabalho mais particular com o texto destaquei uma das falas da personagem Frosina, referindo-se ao personagem central, Harpagon:  “... seus calções presos ao gibão por agulhetas”, que sita peças de roupas que caracterizam o traje da época e definem bem seu personagem. Resolvi investigar uma peça em particular o GIBÃO que intuitivamente me chamou a atenção. Localizei esta peça de roupa em vários períodos da história do traje e a sua releitura, em particular, utilizado no sertão nordestino brasileiro.

Aurélio. Gibão é "vestidura antiga, que cobria os homens desde o pescoço até a cintura". Também é "espécie de casaco curto que se vestia sobre a camisa".

 “O gibão de couro é a roupa típica do vaqueiro nordestino utilizada para proteger-se quando encontra-se em corrida nas matas tentando dominar um animal.”

“Casaco curto e leve de homem usado nos séculos XIV a XVI.”

Observei que essa peça de roupa passou pelo tempo sofrendo alterações, mas sempre com as mesmas características na forma e no seu uso. Com algumas releituras e adaptações o gibão foi a peça eleita para traçar a forma de cada personagem deste projeto de figurino. Foram criadas peças básicas para cada personagem como blusões, vestidos, calças e bermudas e por sobre elas a releitura do gibão como jaquetas, jaquetões, coletes e corpetes. Foram escolhidos diferentes padrões de tecidos para separar visualmente essas personagens que classifiquei em família, empregados e visitantes. Na composição final temos chapéus, gorros, tocas, perucas e bigodes que completam o visual de cada personagem. Foram mantidos dois elementos da caracterização individual de cada palhaço o nariz e o sapato.

 

Aníbal Pacha – Figurinista

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1 comentário(s)

  • bilazinhadamamae Seg 30 Nov 2009 13:18
    Dona Cláudia deve ter tido uns 15 filhos... Que figura grotesca! rrsrs


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