Tivemos ensaios minguados na última quinta e na última terça-feira. Na quinta alguns atores não puderam ir, mas resolvi manter a atividade para não deixar a peteca cair. E isso foi bom, porque mesmo com pouca gente, resolvi trabalhar a cena de abertura para a qual tínhamos pensado a utilização de bonecos. Os bonecos estavam prontos, feitos pela Andréa, mas não havíamos ainda resolvido a cena, como ela seria. E fomos discutindo e criando juntos, um propondo daqui, outro dali... a cena saiu. E gostei, porque além de ficar enxuta, que era o que queríamos – a cena original é longa e o que resultou da adaptação que realizamos ainda estava longa demais – foi criada com elementos que sempre utilizamos, que fazem parte de nossa poética: canções populares, roda de trovas, citações de espetáculos anteriores. Tudo engraçado e lírico.
Foi bom não ter desistido do ensaio, mesmo estando com pouca gente.
Na terça, depois de toda a farra do Círio, quem faltou, por motivo de doença, foi o nosso Harpagon. Mesmo assim, levamos em frente o ensaio. E foi bom. Novas marcas surgiram, novas idéias, conexões. Ensaiamos a entrada do espetáculo ligando-a a primeira cena, criada no ensaio passado.
Queria aqui registrar essas dificuldades que sempre aparecem em nosso processo. Pensando nisso, solicitei aquela tarefa do grupo de escrever sobre o que faz da vida, sobre o palhaço de cada um e sobre cada um no grupo. Somos movidos por uma forte paixão pelo trabalho, sei, sabemos. Mas o dia-a-dia é cruel. Ensaiamos apenas duas vezes por semana, terças e quintas. E pretendemos tanto! Muitos atores chegam cansados, depois de uma jornada dupla de trabalho, aulas, família etc. Faltas, atrasos, acontecem sempre. Quebram o ritmo do ensaio, diminuem seu tempo. Mas é só assim que, ainda, podemos manter este nosso “outro” trabalho, essa nossa paixão. É preciso muito esforço para respeitar o espaço de cada um. É um exercício constante e doloroso. Mas tocamos em frente, sofrendo, mas criando sempre.
Lembrei de outra tarefa: como está sendo para cada um os ensaios na praça. Não falei sobre isso. Mas tenho me sentido muito à vontade. Confesso que o primeiro dia me encheu de ansiedade. Como será, como vamos nos comportar? Mas também estamos tão acostumados a chegar na frente do público e nos arrumar e fazer o espetáculo... que tudo fluiu naturalmente. Como diretor, pensei um pouco em como agiria. Mas fui deixando correr e naturalmente fui me adaptando àquela nova realidade. Uma coisa é maravilhosa: perceber a reação de quem assiste o momento exato em que a cena é criada. Sentir a curiosidade, o prazer da descoberta de saber como aquilo funciona. Que erramos, paramos, repetimos. Que muitas vezes não sabemos como fazer e... de repente, acertamos. Que os erros também são acertos, que incorporamos os acidentes à criação. É belo para mim, e percebo que para o público também, quando noto que, sem querer, o ator fez uma coisa qualquer, um gesto, um tropeço, um movimento de descanso e descubro ali o nascedouro da cena. E instigo e, junto com o ator, com a platéia, vou criando, repetindo, limpando aqui e ali. É o meu prazer! Será assim para todos os diretores?
É isso. Assim se dá nossa Criação Pública.





Marcela Conor
Qui 15 Out 2009 21:47