COMO NASCE UM PALHAÇO?
Jesús Jara, in “El clown, um navegante de las emociones”.
Trad.: Marton Maués
O nascimento de um palhaço não é diferente do de qualquer pessoa. Parte-se de uma herança genética e logo se vai conformando a personalidade através da experiência vivida. Nas pessoas a herança genética provém dos pais e nos palhaços deriva das características de cada um de nós.
Em primeiro lugar, temos que ser conscientes de que o nariz vermelho de um palhaço é a menor máscara que existe, e toda máscara está habitada por um ser que tem vida própria. Portanto, não se trata de colocar-se uma prótese simplesmente, mas de receber o sopro vital de uma espécie de espírito benigno.
Assim, pois, antes de se colocar o nariz vermelho pela primeira vez, temos que realizar exercícios que nos preparem para o encontro: alongamentos, corridas, miados, bocejos, jogos coletivos de implicação psicofísica etc. Qualquer aquecimento teatral serve. Trata-se de chegar ao encontro com a máscara em um estado lúdico, aberto e relaxado.
Quando tenhamos conseguido este estado, nos colocaremos todos em círculo cada qual em um espaço íntimo suficiente e de costas para os demais. Coloca-se o nariz vermelho com um elástico que o ajuste à cabeça como explicamos antes, para nos sentirmos cômodos e para nos sentirmos um com ele. É importante tratá-lo como se fosse nosso próprio nariz e esquecermos de que está ali: deixaremos passar uns segundos sem fazer nada, sentindo tão só como algo que se vai transformando em nosso interior. Depois, podemos começar a realizar pequenos gestos e sons, como bocejar, sorrir, nos coçar, franzir o cenho, nos alongar, cantarolar.
Em seguida, nos viraremos e olharemos os demais, recebendo deles através de seu olhar, a percepção que têm de nós. Em continuação, de maneira espontânea, começaremos a realizar ações cotidianas e simples como caminhar, sentar-se, procurar algo, cumprimentar, olhar, relacionando-nos com quem simpatizamos, e deixando que os contatos com os demais aconteçam com liberdade e sinceridade. Uma música animada de fundo pode ajudar neste encontro, que pode ser mais ou menos longo. Quando considerarmos esgotado, poderemos então ir confrontar diante de um espelho a nossa imagem interior e a imagem externa que recebemos dos outros. Esse momento deve ser curto, justo para conseguirmos unificar as duas imagens.
A partir daí podemos passar a fazer alguma proposta de improvisação coletiva, criando relações entre os demais, provocando reações e emoções diversas, para que assim passemos a conhecer nosso palhaço em seus distintos sentimentos. Sozinhos e em relação com os outros. O palhaço nasce do interior de cada um. Portanto, vai ter o essencial de nosso caráter e de nossa estrutura física. Porém essencial não é tudo aquilo que incorporamos ao nosso comportamento devido às pressões das normas sociais. Através dele, vamos descobrir, com surpresa, como nosso palhaço faz coisas que nós habitualmente não nos permitimos, porque ele é um espírito livre que vive e age com sinceridade, em coerência com seus sentimentos.
Não devemos tentar passar nossa ideologia ao palhaço. Suas questões morais e de conduta têm outro código que temos que descobrir. Entendido dessa maneira se pode afirmar que o encontro com nosso palhaço é uma fonte inesgotável de conhecimento de nós mesmos.






