O nascimento do clown está
ligado ao aparecimento do circo moderno, no século XVIII –
1770 para uns, 1776/77 para outros - pelas mãos do ex-militar
inglês Philipe Astley. Suboficial da cavalaria inglesa, Astley
concebeu um espaço de apresentação circular, pois descobriu ser
mais fácil se equilibrar em pé sobre um cavalo se este estiver
galopando em um círculo perfeito, por causa da força centrífuga. E
criou um espetáculo em que cavalo e cavaleiro eram a grande
atração. Mas as artes circenses – danças, cantos, habilidades
acrobáticas - são bem antigas e privilégio de vários povos e
culturas. Na Roma antiga tivemos o Circo Máximo e o Coliseu, que,
como o circo de Astley, tinha cavalo e cavaleiro como atrações
centrais. Porém, como ressalta Bolognesi (2003), apesar das
semelhanças, os dois possuem diferenças marcantes, que vão da
origem aos objetivos de cada um.
“A ligação dos jogos
romanos com a religião e o estreito vínculo entre eles e uma
política estatal são elementos que diferenciam a natureza das
atividades romanas daquelas próprias do circo europeu, tal como
ficou conhecido a partir do século XVIII. Outro ponto discordante
diz respeito ao caráter competitivo que permeava as exibições
públicas em Roma, que as aproximavam da atividade esportiva e as
distanciavam da arte, tal como ocorre nos circos.”
(Bolognesi, 2003, p. 30)
O estudioso observa que o
sentido religioso do circo da antiguidade foi substituído, no circo
moderno, pelo sentido comercial: “O culto cedeu lugar à
abstração da moeda” (Bolognesi, 2003, p. 24). O circo de
Philip Astley era uma empresa, que tinha na burguesia abastada seu
público alvo. Numa sociedade em que a equitação era privilégio da
nobreza, um espaço de exibição e ensino desta arte a quem bem podia
pagar para isso surgia com sucesso garantido. É o que observa a
pesquisadora Alice Viveiro de Castro, citada por Torres
(1998):
“O que fez o charme do
circo naquele momento foi o fato de a equitação ser um esporte
nobre, numa época em que os direitos de nobreza eram rígidos. Só os
nobres e militares tinham acesso à equitação, às altas escolas de
equitação. A burguesia tinha seus cavalos mas não tinha como
aprender equitação. Quando Astley criou um espaço público para dar
aulas de equitação e fazer demonstrações, ele tinha mesmo que fazer
sucesso, pois seu público ia ser a burguesia, com poder aquisitivo,
além do público da feira. A feira não permitia fazer uma exibição
tão bonita e organizada, pois era muito bagunçada. Porém, ela foi o
lugar onde a arte circense permaneceu, de Roma a Philip
Astley” (Torres, 1998)
Mas para que tudo
funcionasse perfeitamente, Astley utilizou toda a sua experiência
de caserna implantando em seu circo o rigor militar e elementos que
ainda hoje subsistem nos circos espalhados pelo mundo, sobretudo os
que trabalham de maneira mais tradicional.
“... tudo em seu circo
funcionava em regime de quartel: os uniformes, o rufar dos
tambores, as vozes de comando para a execução de números de risco.
E empregou em sua companhia vários ex-companheiros de caserna,
acostumados à disciplina militar. E todo mundo ali era bom de sela
e precisava ser mesmo, porque quase tudo que o circo apresentava
era a cavalo. Na pista, o próprio Astley dirigiu e apresentou o
espetáculo, nascendo assim o mestre de cerimônias (o nosso mestre
de pista).” (Torres, 1998, p.
18)
Com o tempo, outros números
foram ocupando o espaço do circo. Artistas populares –
saltimbancos, funâmbulos, malabaristas, prestidigitadores - que
realizavam suas habilidades principalmente nas feiras, são chamados
para preencher os intervalos das grande atrações, que eram os
números de acrobacia eqüestre. Em pouco tempo, o novo espetáculo
sai da Inglaterra e vai para a França, o que acontece a convite de
Luís XV. Onze anos depois, em Paris, Astley monta a filial de seu
circo, o Anphithéatre Anglois. Ali, o espetáculo circense ganha
nova roupagem; e cada vez mais elaborado, com uma grande variedade
de números, passa a ser itinerante: o circo ganha o
mundo.
Em mais ou menos cincoenta
anos o circo espalha-se pela Europa, atravessa o Atlântico e chega
aos Estados Unidos - ao mesmo tempo em que também aporta no
Brasil.
“Em 1830, o circo inglês
atravessou o Atlântico rumo aos Estados Unidos. Foi nessa época que
o Rio de Janeiro e Buenos Aires passaram a fazer parte do
calendário artístico de grandes companhias européias, que trouxeram
os primeiros nomes que aqui iriam se tronar familiares: Beli,
Guillaume, Orrin, Leighton e Lowande, este aportuguesado para
Luande...” (Torres, 1998, p. 18)
Existem relatos de
atividades circenses no Brasil desde antes do século XVIII, quando
surge o circo moderno, realizadas sobretudo por ciganos fugidos das
perseguições na Europa. Estas exibições se faziam também embaixo de
lonas, que infelizmente não se pode especificar como eram. Mas foi
no século XIX, sobretudo em função dos ciclos econômicos, como os
ciclos do café e da borracha, que o circo aportou no Brasil,
trazendo uma grande leva de famílias, que aqui se instalaram,
criando assim a tradição circense brasileira. “Esse processo
terminou por solidificar uma prática conhecida do circo brasileiro,
a organização de companhias familiares. Assim, a partir do século
XIX, toda a prática circense brasileira se organizou em torno do
circo-família”, afirma Bolognesi (2003, p. 46). Mais
adiante, o pesquisador fala das peculiaridades do trabalho dessa
empresa familiar, desde a organização do espetáculo, até o repasse
das técnicas e
habilidades circenses.
“As famílias que se
dedicaram à atividade circense no Brasil envolveram todos seus
membros na realização do espetáculo. Mais ainda: se o espetáculo
era familiar, também o eram as formas de ensino e aprendizagem.
Essa prática, com o passar dos ano, consolidou algo que talvez seja
típico do circo brasileiro, isto é, a idéia de tradição
circense. Desde cedo
a criança era iniciada nas lides circenses, de modo que sua
formação (como artista e cidadão) se dava, prioritariamente,
debaixo da lona. Essa formação não conduzia à
especialização em uma
determinado tipo de número. Ao contrário, a educação no interior do
circo buscava a totalidade, desde o montar e desmontar da lona, até
as proezas dos números artísticos. Por preferências e habilidades
particulares, as famílias foram se dedicando a números específicos.
Porém, mesmo nesses casos, a transmissão do saber circense incluía
os ensinamento necessários à sobrevivência do espetáculo e da
família. Essa educação, que se estrutura a partir da vida prática,
ainda se mantém...” (Bolognesi, 2003, p.
47)
Foi no circo de Astley que surgiu o clown. Os
números eqüestres e as grandes habilidades não eram suficientes: o
novo espetáculo precisava do equilíbrio aliviador do
riso.
“... [Astlay] Começou, então, a colocar o
palhaço do batalhão, que era o soldado, o campônio, que acaba sendo
depois o clown, que em inglês vem de camponês. Este palhaço, que
não sabia montar, entrava no picadeiro montado no cavalo ao
contrário. Cai do cavalo, sobe de um lado, cai do outro, passa por
baixo do cavalo. Sucesso total. Começam a se desenvolver situações
dessa figura, que é um resumo de todas as figuras cômicas que
existiam antes e que já estavam na memória coletiva do público. O
elemento cômico bagunça com toda a estrutura militar de Philip
Astley, que com esse número criou o "grotesco a cavalo", paródia de
uma recruta de cavalaria que não consegue montar direito no cavalo,
nos primeiros exercícios do quartel.” (Torres, 1998, pp.
18/19)
O mentor do circo moderno,
Philip Astley chegou mesmo até a criar uma pequena peça cômica
circense, montada e remontada nos circos pelo mundo afora, após a
popularização e expansão desta forma de espetáculo. (falar da
peça)
Clown em inglês vem de
clod –
camponês, rústico. Palhaço vem do italiano, pagliaccio, personagem cômico
que se vestia com roupa feita de pano grosso e listrado, afofada
nas partes mais salientes, como um colchão cujo revestimento era de
palha, em italiano paglia. Para alguns
pesquisadores, hoje não há diferença entre o clown e o palhaço.
Outros preferem ver o palhaço ligado ao picadeiro e o clown ao
palco. Concordamos com os primeiros, aceitando o que diz
Burnier (2001): “Na verdade palhaço e clown são termos
distintos para designar a mesma coisa. Existem, sim, diferenças quanto
às linhas de trabalho.” Para ele, os palhaços ou clowns
americanos valorizam mais a gag, a idéia, preocupam-se com
o que vão fazer. Por
outro lado, outros palhaços dão mais ênfase ao como fazer as
coisas, trabalhando
numa linha mais pessoal, como os europeus. Esta linha de trabalho é
observada hoje em alguns grupos brasileiros, como o Lume, criado
por Luiz Otávio Burnier.
O palhaço se desenvolveu
junto com o circo. Alguns tipos foram surgindo, sendo os mais
tradicionais o clown branco e o augusto - este o ingênuo, vestido
com roupas de tamanhos desiguais e cores berrantes, maquiagem
carregada e o tradicional nariz vermelho, a menor máscara do mundo;
aquele o esperto, autoritário, vestido elegantemente com o brilho
das lantejoulas, rosto pintado de branco com apenas alguns traços
em realce e chapéu em forma de cone. O primeiro, quer o tempo todo
ludibriar o segundo. Em sua pureza e ingenuidade, o augusto muitas
vezes acaba superando o arrogante e inteligente branco, que
personifica a imagem do patrão, o poder. O jogo realizado entre
eles caracteriza a maioria dos circos do passado e de
hoje.
Como o circo, o palhaço
pertence a uma tradicional linhagem de cômicos, que vem da
antiguidade e passa principalmente pela Idade Média e pelo
Renascimento. Como observa Burnier (2001, p. 206): "Os tipos
característicos da baixa comédia grega e romana; os bufões e bobos
da Idade Média; os personagens fixos da commedia dell´arte
italiana; o palhaço circense e o clown possuem uma mesma essência:
colocar em exposição a estupidez do ser humano, relativizando
normas e condutas sociais``. Com esses familiares, o palhaço guarda
semelhanças diversas. Principalmente do bufão e do bobo herdou a
irreverência, o poder de tudo fazer e dizer. E dos personagens da
Commedia dell´Arte, o jogo de duplas e até mesmo de trios dos
criados, os chamados zanni.
Os bufões e bobos não eram
personagens, mas “continuavam sendo bufões e bobos em todas
as circunstâncias da vida” (Burnier, 2001, p. 207). A eles
era permitido fazer e dizer o que quisessem, e a quem quisessem.
“Encarnavam uma forma especial de vida, simultaneamente real
e irreal, fronteiriça entre a arte e a vida”
(idem). A comédia
italiana era também uma espécie de empresa familiar. Um teatro
profissional, cujos atores se empenhavam no domínio de diversas
técnicas. Os personagens eram fixos e interpretados pelo mesmo
ator, durante toda a sua vida profissional – o ator se
especializava em determinado personagem. Usavam máscaras, que de
certa forma determinavam aspectos de seu caráter. Basicamente eram
divididos em senhores, criados e enamorados. Os espetáculos eram
apresentados quase sempre ao ar livre, os temas eram retirados do
cotidiano, daí a aceitação imediata do público. Não havia um texto,
mas um roteiro, o canovaccio, sujeito às improvisações dos
atores/personagens, dependendo do andamento da apresentação. Além
das técnicas de interpretação, os atores dominavam o canto, a
dança, a pantomima e uma variedade de habilidades, como acrobacias
e malabares.
“Na commedia
dell´arte, apareceram, de certa forma, resquícios da dupla de
cômicos, os zanni, servos da commedia dell´arte, cuja relação se
aperfeiçoará nos clowns. A eles cabia a tarefa de provocar o maior
número de cenas cômicas, por suas atitudes ambíguas e suas
trapalhadas e trejeitos. Existiam dois tipos distintos de
zanni: o primeiro fazia o público rir por sua astúcia, inteligência
e engenhosidade. De respostas espirituosas, era arguto suficiente
para fazer intrigas, blefar e enganar os patrões. Já o segundo tipo
de criado era insensato, confuso e tolo. Na prática, porém, havia
uma certa ´´ contaminação`` de um pelo outro. O primeiro zanni é
mais conhecido como Brighella e o segundo como Arlecchino.”
(Burnier, 2001, p. 209)
Não há dúvidas de que o
clown é herdeiro direto dessa tradição, muito absorveu dos
personagens da Commedia dell´Arte. Podemos mesmo dizer que ele
amalgamou toda uma gama de características e técnicas que vêm sendo
utilizadas pelos artistas cômicos ao longo da história da
humanidade. Desde os primórdios, que talvez tenha sido, como na
hipótese de Roberto Ruiz (1987), “...aquele troglodita que,
num dia de caça surpreendentemente farta, entrou na caverna dando
pulos de alegria e despertando, com suas caretas, o riso dos seus
companheiros de dificuldade”.
Talvez. Certo é que o
artista cômico há muito se faz presente nas ruas, nas feiras, nos
circos. Habita as cidades e o coração dos homens. Mostrando a eles
a relatividade e transitoriedade da vida.
(Marton
Maués)